Hoje fui jantar com uma amiga que não está no seu melhor. Ela estava angustiada e eu nem sei se sim ou se não. Estava eu. A verdade é que não sou linear. Enquanto a conversa se desenrolava eu ia falando e ela ia rindo. As coisas sucederam-se. Chegaram outras pessoas e a conversa continuou como se elas não estivessem lá. São pessoas neutras. São demasiado assustadas acerca de si próprias para se revelarem. Querem parecer bem. Eu não.
De repente apercebi-me. O álcool ia chegando, eu ia falando e provavelmente chocando e fascinando. Eu não tenho medo de ser eu. Eu danço, rio e falo talvez de forma animal.Gutural.
Esta semana tive uma experiência estranha. Estava num médico para uma consulta normal e de repente era o sangue, só me cortavam, e o sangue enchia-me a boca, suja-me a boca, empapava-me o cabelo e a camisa de seda. Foi violento. Fui para casa perdida.
Lavei-me, a mim, ao cabelo, á roupa, á camisa perdida.
Hoje estava no bar, as pessoas olhavam para mim, caiu um dos pensos, tenho costuras na cara, tenho fios de nylon na cara. Parecem aranhas, aranhas esmagadas, com as patas penduradas.
As pessoas olham para mim, fascinadas. Não tenho medo das costuras, ainda assim continuo mais natural que elas. Sou a única que danço se me apetecer sem pensar se mais alguém o faz. Estava eu nisto, ou seja normal, quando de repente me lembro do meu cão, que está doente, a antibióticos e saío porque já se passaram uma horas e ele precisa do medicamento.
Eu, saío, para dar o medicamento ao meu cão, entro na minha casa burguesa e confortável só para isso. Largo tudo por isso. Não pelo politicamente correcto, directamente para a minha casa que tantos gabam mas apenas porque o amo mais que a vocês. Eu quero que ele viva.
Mas eu sou a mulher das costuras, da dança, da camisa de seda a escorrer sangue. E cada vez mais sei que é isso que vos fascina. A bestialidade, a falta de medo, nem sequer é a marginalidade porque sou uma pessoa que vocês aplaudem de pé, mas porque sou aquela que tenho sucesso mantendo a besta inominável dentro de mim. Sou aquela que deixa a besta viver dentro de mim.
Sou aquela que vive com a boca cheia de sangue.
Sou aquela que vive com a boca cheia de sangue.
E como vocês me amam. Como vocês me idolatram.
Eu sei. Vocês só conseguem ter sucesso num dos lados.
Eu venço em todos. Sou tão animal como isso. No fundo, só prevalece o mais antigo instinto.
Eu sei. Vocês só conseguem ter sucesso num dos lados.
Eu venço em todos. Sou tão animal como isso. No fundo, só prevalece o mais antigo instinto.
E é tão fácil. Apenas me arranha a garganta como estes cigarros estranhos após uns dias de ausência.
Mas sabe tão bem e é tão natural em mim.
