sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Tarde para viver

Já é Setembro. Já passou a morte, o escuro e também a dor. Não regressaste do mundo dos mortos mas pelo menos eu andei no dos vivos. Gosto disso em mim. Regenero-me como um lagarto. Bem podem cortar que volta a nascer. Um dia morro, eu sei, mas não é já porque tenho mais que fazer.
Fui para o Vietname e agora estou em Barcelona, o que até pode parecer bem irónico porque qualquer um dos lugares citados são terras de grandes massacres mas eu só procuro a vida e é isso que encontro. A vida com história e isso é o que mais amo. Podia perder horas aqui a descrever o que senti e vi naquele Oriente quente, magoado e maravilhoso mas ninguém sequer chegaria a vislumbrar o que é a realidade ou sequer o brilho que isso traz aos meus olhos. Cada vez acho mais que se querem saber, vão lá, não leiam, não oiçam, não vejam pelos olhos de terceiros, apenas vão lá e respirem o ar quente e oiçam as suas gentes, as suas águas, as suas plantas. Pode parecer estúpido e redutor mas se puderem, apenas vivam todos os destinos e todas as vidas que vos apetecer. O mundo é demasiado grande para uma única vida e por isso é sempre tarde para viver.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Hoje a vida deixou-me sentada

sem reacção, sem entretenimento, sem palavras e vontades. Fiquei aqui, paralisada no vazio, a fumar até me doerem os pulmões, à espera de não respirar.
Hoje morreste e deste-me a dimensão da estupidez da minha vida e principalmente da minha solidão. Tu morreste e fiquei ainda mais só, aterrorizada com a perspectiva de ter de entrar em casa, o meu castelo seguro e de não te ter pôr lá. Estive mesmo para fugir mas fiquei com a infeliz pergunta presa na garganta..para onde? PARA ONDE?!!! Não pertenço a ninguém, não faço parte de mais nenhuma casa. Resta-me isto. A falta de ar.
Ultimamente tem sido assim, morre o cão, volta o morrer o cão, morre o gato, morre a empresa, morre o orgulho, morre a dignidade, tudo acaba e todos os dias te levantas apenas para perder mais alguma coisa ou alguém que amas.
Como não percebo a mensagem subjacente a tamanha derrocada e perdas, que tanta gente iluminada diz que faz parte do plano celestial ou bestial, resta-me perguntar se a seguir serei eu.
Pode-se morrer de desgosto, de apatia, de cansaço?

Só passaram algumas horas e a saudade é avassaladora, resta-me o consolo de teres morrido comigo a dizer que te amava, contigo encostado a mim.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sharp as me

Estou aqui sentada na minha bela fábrica, entre papéis, cigarros, números e pensamentos.
Segundo consta, este é um ano terrível e difícil e claro que para nós, também tem sido duro, não tanto pela dita crise, mas mais pela crise de valores que rege aqueles que escolhemos para parceiros e amigos. Isto sim, é pior que a crise. Nunca vi nada assim e o último ano tem sido amargo como caroços de limão e isso deixa-me mais pensativa e apreensiva.
Nós somos só dois malucos, estóicos, a remar contra a maré e a levar pancada dia e noite no meio da tempestade. Tem sido assim todos os dias e têm dias que são seguidas, desde manhã até à noite.
Quando chego a casa, não sou mais que um farrapo roto e dorido. Esta é a verdade, ou melhor, esta é uma das verdades. A outra é que apesar de tudo, todos os dias me levanto com moral, bem-disposta e com garra para o dia.
Nem eu sei explicar porquê e muito menos o quando me tornei nesta pessoa forte e quase impossível de derrotar mas a verdade é que esta sou eu, agora.
Forte, moralizada, refinada, atenta, muito mais que esperta, totalmente inteligente e completamente combativa. Esta época que atravessamos só serviu para me destacar e apurar.
Tornei-me numa fortaleza e se ao longo deste 2, 3 meses que vêm não me matarem, terão criado um monstro alado, leve, belo e mortal.
Diria mesmo, algo pelo qual se deve morrer.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Os ares díficeis

Há pouco tempo li um livro com este nome. Não é que o livro seja para aqui chamado, apenas aconteceu.É como o cigarro que fumo e que não me apetece. Faz parte de mim e não sei porque me acontece. Esta é a verdade. Eu tenho alguma pretensão de controlar a minha vida mas apenas no que é óbvio e sei que eu que sou uma fatalidade na minha vida.
Quando me conheci, já amava mais a literatura, a música, o tabaco e a loucura do que a mim.
E que se faz disso? Domestica-se? Enterra-se? Casa-se com uma mulher sendo gay?
Claro que não. Vive-se e não se escolhe.
Por causa disso, por causa de ser amante da música, da literatura e do mundo, vive-se uma vida quase insana mas feliz.
Claro que não se ama o homem correcto, claro que não nos contentamos com as facilidades, não se vive de mundanices e de casos comuns e que pagamos os preços mais que certos, é lógico que não vamos para casa fazer o jantar para o marido e para os filhos, claro que não somos contabilistas nem enfermeiros, nem cavaleiros, nem padres e muito menos filhos da verdade. Nada disso.
O que nos resta, o muito que nos resta é delirar com as viagens, as pessoas, as imagens, as músicas, e pular, pular, sem medos, contra a noite escura, contra a imensidão e sermos felizes e leves e étereos, e simples e complexos e principalmente livres.
E como agradeço ter nascido coxa de sociedade e de preconceitos e de pressupostos e de todos os dias acordar e só me lembrar de me mim e de aquilo que amo. Dá-me tanto futuro. Dá-me tanta febre, tanta alegria e liberdade.
A verdade é que os ares são díficeis mas ao vosso lado eu sou a beleza, a leveza e mais que tudo, eternamente intocável e feliz.

É isso, a leve leveza. E todos os dias, ou muito mais do que me lembro, levanto vôo e pairo sobre os ares díficeis, sobre os mundos, as industrias, as máquinas, os homens e reencontro-me na mais simples palavra, num acorde, num piscar de olhos, numa breve paisagem. E isto sou eu. Sempre surpresa, sempre arrepiada, sempre EU!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Um pouco mais de azul



Esta fotografia foi tirada na Índia, numa ilha fantástica, praticamente deserta e primitiva, sem televisão, emailes, pouca electricidade, comia-se o que se pescava com arroz e pouco mais. Estive lá uma semana. Era só azul. O do mar, o do céu, o do espírito das pessoas. Quem lá chegava ficava azul. Era impossível ser doutra maneira.Foi o sitio mais próximo do paraíso que encontrei e tenho umas saudades avassaladoras dele. Era tudo o que eu mais queria. Apenas isso e só isso. O AZUL.