Estive ausente. Estive a viajar. Foi um ano de viagens. França, Bélgica, Holanda, Espanha, Itália e agora Irlanda.
Irlanda e mais uma vez Irlanda. Foi como se alguma coisa me rasgasse. Foi o deserto amargo e magnífico das emoções.
Nunca me senti tão livre, tão só, tão à deriva, tão cheia de mim mesma, perspectivas, sonhos, emoções e terrores.
Conheci pessoas fabulosas, misteriosas, densas, intensas, indefesas, sonhadoras, realistas mas todas cheias de ideais, futuros imensos, de noites perdidas e manhãs gloriosas, marés baixas e vidas por realizar.
Testei-me até ao limite, para além de mim, senti-me imensamente feliz, perdidamente triste, totalmente indefesa, completa, livre. Conheci-me, as minhas falhas, a minha valentia e o quanto sou falível. A dor e o êxtase, a terrível dualidade.
E que faço eu?
Perco-me nos caminhos, ando quilómetros, esgueiro-me para a beira-mar, penduro-me dos penhascos, gritos aos ventos, estranho tudo, estranho-me a mim, descubro-me tímida, envergonhada, inocente, antiquada, inexplorada, pronta e virgem.
Quando parti era uma, agora que voltei, sou outra. Lá eu era a estrangeira mas e aqui?
Até o Português me é estranho. Tudo é violento.
Se morri de saudades dos que amo e do meu conforto de rainha e me sujeitei a tudo, agora que os recuperei, falta-me algo. Falta-me a descoberta, a magia, a estrangeirice que existe em mim.
Voltar para aqui, para a minha vida industrial, sem carneiros, rios bravos e dias agrestes torna-me estranha. Sou uma estranha na minha própria terra. No meu mundo.
E tenho uma volta ao mundo planeada para daqui a uns meses. Serei capaz? Sobreviverei a mim mesma, á minha curiosidade?
Morrerei de mim mesma, intoxicarei-me de saudades e novidades?
Cortei-em em duas e agora não sei viver com isto.
Só me resta cantar com os meus velhos amigos:
"These things you keep
you better throw them away
Turn your back
on your soulless days
Once you were tethered
now you are free
Once you were tethered
now you are free
That was the river
this is the sea"
Yeah! This the sea!
E eu sei que nunca mais voltarei a ser a mesma.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
sábado, 8 de março de 2008
A besta
Hoje fui jantar com uma amiga que não está no seu melhor. Ela estava angustiada e eu nem sei se sim ou se não. Estava eu. A verdade é que não sou linear. Enquanto a conversa se desenrolava eu ia falando e ela ia rindo. As coisas sucederam-se. Chegaram outras pessoas e a conversa continuou como se elas não estivessem lá. São pessoas neutras. São demasiado assustadas acerca de si próprias para se revelarem. Querem parecer bem. Eu não.
De repente apercebi-me. O álcool ia chegando, eu ia falando e provavelmente chocando e fascinando. Eu não tenho medo de ser eu. Eu danço, rio e falo talvez de forma animal.Gutural.
Esta semana tive uma experiência estranha. Estava num médico para uma consulta normal e de repente era o sangue, só me cortavam, e o sangue enchia-me a boca, suja-me a boca, empapava-me o cabelo e a camisa de seda. Foi violento. Fui para casa perdida.
Lavei-me, a mim, ao cabelo, á roupa, á camisa perdida.
Hoje estava no bar, as pessoas olhavam para mim, caiu um dos pensos, tenho costuras na cara, tenho fios de nylon na cara. Parecem aranhas, aranhas esmagadas, com as patas penduradas.
As pessoas olham para mim, fascinadas. Não tenho medo das costuras, ainda assim continuo mais natural que elas. Sou a única que danço se me apetecer sem pensar se mais alguém o faz. Estava eu nisto, ou seja normal, quando de repente me lembro do meu cão, que está doente, a antibióticos e saío porque já se passaram uma horas e ele precisa do medicamento.
Eu, saío, para dar o medicamento ao meu cão, entro na minha casa burguesa e confortável só para isso. Largo tudo por isso. Não pelo politicamente correcto, directamente para a minha casa que tantos gabam mas apenas porque o amo mais que a vocês. Eu quero que ele viva.
Mas eu sou a mulher das costuras, da dança, da camisa de seda a escorrer sangue. E cada vez mais sei que é isso que vos fascina. A bestialidade, a falta de medo, nem sequer é a marginalidade porque sou uma pessoa que vocês aplaudem de pé, mas porque sou aquela que tenho sucesso mantendo a besta inominável dentro de mim. Sou aquela que deixa a besta viver dentro de mim.
Sou aquela que vive com a boca cheia de sangue.
Sou aquela que vive com a boca cheia de sangue.
E como vocês me amam. Como vocês me idolatram.
Eu sei. Vocês só conseguem ter sucesso num dos lados.
Eu venço em todos. Sou tão animal como isso. No fundo, só prevalece o mais antigo instinto.
Eu sei. Vocês só conseguem ter sucesso num dos lados.
Eu venço em todos. Sou tão animal como isso. No fundo, só prevalece o mais antigo instinto.
E é tão fácil. Apenas me arranha a garganta como estes cigarros estranhos após uns dias de ausência.
Mas sabe tão bem e é tão natural em mim.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Mudar de Casa
Pela sexta vez em 7 ou 8 anos, que estou a mudar de casa, de cidade, de mim. Isto é violento, brutal e cansativo. Fico exausta e perco-me de mim.
No meio destes meus caixotes que me acompanham, trago bocados da minha vida e daquilo que sou. Isto não é normal, ninguém muda de casa como eu. De repente, aquela casa já não me serve, aquela cidade é demasiado pequena, o trabalho precisa de mim noutro ponto do país e lá vou eu, com a bagagem, a vida aos bocados, rumo ao desconhecido.
Depois sobrevem a exaustão porque tudo isto é muito exigente e porque mesmo fisicamente é avassalador.
Quando saio, olho para as casas vazias e já não as reconheço, e nas novas, reconheço os confortos e as oportunidades mas já não me iludo (embora me entusiasme!) com as páginas em branco, no sentido em que serão tudo rosas. Isso não existe mas tudo é vida.
A verdade é que sou nómada e autónoma. Gostava de viver em milhares de cidades ao mesmo tempo. Ser portuguesa e estrangeira, falar muitas linguas e viver muitas vidas em simultâneo. Só uma não me chega. É curta.
Tenho sono mas também tenho os olhos brilhante e torno-me ainda mais bonita porque tenho ainda assim a expectativa dentro de mim....pergunto-me, O que virá a seguir? O que me trará esta casa de banheira gigante e assoalhadas suaves? Quem se cruzará comigo?
De imutável fica só mesmo a mobilia, a familia e os animais (esses desgraçados que me acompanham até ao fim do mundo), tudo o resto é novo.
Sou como uma árvore, por camadas, sempre novas, sempre nova mas sem envelhecer.
Caso não saibam, para o ano vou dar a volta ao mundo e no meio disto tudo, sou estranhamente feliz.
No meio destes meus caixotes que me acompanham, trago bocados da minha vida e daquilo que sou. Isto não é normal, ninguém muda de casa como eu. De repente, aquela casa já não me serve, aquela cidade é demasiado pequena, o trabalho precisa de mim noutro ponto do país e lá vou eu, com a bagagem, a vida aos bocados, rumo ao desconhecido.
Depois sobrevem a exaustão porque tudo isto é muito exigente e porque mesmo fisicamente é avassalador.
Quando saio, olho para as casas vazias e já não as reconheço, e nas novas, reconheço os confortos e as oportunidades mas já não me iludo (embora me entusiasme!) com as páginas em branco, no sentido em que serão tudo rosas. Isso não existe mas tudo é vida.
A verdade é que sou nómada e autónoma. Gostava de viver em milhares de cidades ao mesmo tempo. Ser portuguesa e estrangeira, falar muitas linguas e viver muitas vidas em simultâneo. Só uma não me chega. É curta.
Tenho sono mas também tenho os olhos brilhante e torno-me ainda mais bonita porque tenho ainda assim a expectativa dentro de mim....pergunto-me, O que virá a seguir? O que me trará esta casa de banheira gigante e assoalhadas suaves? Quem se cruzará comigo?
De imutável fica só mesmo a mobilia, a familia e os animais (esses desgraçados que me acompanham até ao fim do mundo), tudo o resto é novo.
Sou como uma árvore, por camadas, sempre novas, sempre nova mas sem envelhecer.
Caso não saibam, para o ano vou dar a volta ao mundo e no meio disto tudo, sou estranhamente feliz.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
C
Hoje ainda acordei contigo mas já tinha medo de te olhar nos olhos. Tinha medos dos teus olhos e dos meus. Passei o dia todo a controlar-me para não chorar, pelos vistos, falhei a direcção da auto-estrada e por isso tivemos que fazer quilómetros a mais. Foi um dia difícil e atarefado e eu não me sentia capaz de fazer nada, não sabia como é que ia continuar. Agora cheguei a casa e mal fechei a porta invadiu-me um grande desespero...tão grande que tive que correr para a rua e deixei-me ficar debaixo da chuva torrencial, na esperança que de alguma maneira aquilo me aliviasse. Mas não, fiquei encharcada e gelada para além de desesperada.
Sem te querer ofender a ti, pensei que de alguma maneira me viria um alívio, apenas relacionado com a liberdade mas sobreveio fortemente a tristeza.
Que grande tristeza, mesmo.
Agora choro e posso chorar (finalmente!) mas eu nem sequer sou uma mulher de lágrimas e de certa maneira, elas espantam-me e surpreendem-me.
Se me leres, pensarás que estou chalada e que tu é que devias de chorar ou então que me devia internar, mas não, tu sabes mais do que isso e chegas lá. Sempre chegaste. De certa maneira, houve um sonho meu que morreu, um sonho teu que morreu, uma fase nossa que acabou.
Apagou-se a luz.
Amo-te profundamente e serei sempre a tua melhor amiga nesta nossas existências confusas.
Serás sempre o meu Sartre e espero que um dia me deixes ser o teu Castor.
Lamentavelmente, não consigo ser melhor do que isto.
Sem te querer ofender a ti, pensei que de alguma maneira me viria um alívio, apenas relacionado com a liberdade mas sobreveio fortemente a tristeza.
Que grande tristeza, mesmo.
Agora choro e posso chorar (finalmente!) mas eu nem sequer sou uma mulher de lágrimas e de certa maneira, elas espantam-me e surpreendem-me.
Se me leres, pensarás que estou chalada e que tu é que devias de chorar ou então que me devia internar, mas não, tu sabes mais do que isso e chegas lá. Sempre chegaste. De certa maneira, houve um sonho meu que morreu, um sonho teu que morreu, uma fase nossa que acabou.
Apagou-se a luz.
Amo-te profundamente e serei sempre a tua melhor amiga nesta nossas existências confusas.
Serás sempre o meu Sartre e espero que um dia me deixes ser o teu Castor.
Lamentavelmente, não consigo ser melhor do que isto.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
O meu nome é Negro
Ao fim de tanto tempo, voltei. Nunca mais escrevi nada e foi como se o papel e a caneta já não me servissem. Tinha que ser aqui, no meu canto escuro virtual, o meu renascer (?).
Acho que ando seca, que não quero sentir muito. Vivo numa esquina de mim, suspensa, inerte e calada. Se morresse amanhã, era bem feito!, morria parva, fora do mundo, no meu sofá, perdida num livro, numa música ou num jogo qualquer, muito longe da minha vida. Depois arrependia-me e voltava para este planeta como uma alma tresmalhada e vingativa e de pouco ou nada me servia. A vida está lá fora, a correr e por isso o meu nome é negro (referências literárias aos pontapés!).
Nos meus belos 36 anos, quando penso do que quero da vida, só me saí uma resposta: Viajar!
Não quero casar, nem ter filhos, nem nada do que era suposto para uma mulher já com trinta e tais! Ficas para tia!! Vais morrer sem alegrias da maternidade (ou seja, vais morrer sem ser mulher digna e completa!) e sei lá mais o quê!
Eu aceito, até me podem escapar alguns milagres desta vida e da natureza mas o que eu mais quero é agarrar em mim, meter-me num avião, carro, navio ou qualquer coisa que se mova e ir conhecer mundo! Quero partir sem data de regresso, demorar o tempo que eu quiser em cada sitío, completamente livre para a minha viagem, sem laços, nem afectos que me prendam. Primeiro, tenho mesmo que saciar esta minha sede.
Não me interessam os outros, nem o trabalho, nem a bela casa, nem o carro janota.
Deixo-vos tudo em conjunto com a vossa má-lingua e julgamentos...por isso, e só por isso, o meu nome é Negro.
Acho que ando seca, que não quero sentir muito. Vivo numa esquina de mim, suspensa, inerte e calada. Se morresse amanhã, era bem feito!, morria parva, fora do mundo, no meu sofá, perdida num livro, numa música ou num jogo qualquer, muito longe da minha vida. Depois arrependia-me e voltava para este planeta como uma alma tresmalhada e vingativa e de pouco ou nada me servia. A vida está lá fora, a correr e por isso o meu nome é negro (referências literárias aos pontapés!).
Nos meus belos 36 anos, quando penso do que quero da vida, só me saí uma resposta: Viajar!
Não quero casar, nem ter filhos, nem nada do que era suposto para uma mulher já com trinta e tais! Ficas para tia!! Vais morrer sem alegrias da maternidade (ou seja, vais morrer sem ser mulher digna e completa!) e sei lá mais o quê!
Eu aceito, até me podem escapar alguns milagres desta vida e da natureza mas o que eu mais quero é agarrar em mim, meter-me num avião, carro, navio ou qualquer coisa que se mova e ir conhecer mundo! Quero partir sem data de regresso, demorar o tempo que eu quiser em cada sitío, completamente livre para a minha viagem, sem laços, nem afectos que me prendam. Primeiro, tenho mesmo que saciar esta minha sede.
Não me interessam os outros, nem o trabalho, nem a bela casa, nem o carro janota.
Deixo-vos tudo em conjunto com a vossa má-lingua e julgamentos...por isso, e só por isso, o meu nome é Negro.
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